Escrito no ano de 2020. Revisto e revisado no ano de 2026, sem mudanças ou acréscimos substanciais.
We’re trapped in the belly of this horrible machine
— Gospeed You! Black Emperor
And the machine is bleeding to death
To see the ultimate conspiracy, realize there is no conspiracy. Realize the rulers of this world must hide the ultimate order of things even from themselves.
— Against Sleep and Nightmare
Hoje, o ciberespaço tornou-se um fenômeno que zomba de todos os que um dia lhe depositaram expectativas emancipatórias. Os nostálgicos até chegam a conceber uma “Era de Ouro” da Internet, marcada sobretudo pela partilha apaixonada de textos, imagens, músicas, vínculos e afetos, planos e conspirações, em suma, tudo o que pudesse ser traduzido pelas ferramentas da reprodutibilidade técnica. A Internet trazia consigo a promessa de uma rede transnacional e livre das barreiras da propriedade intelectual, em franco confronto com os impérios midiáticos que ainda ocupam o andar de cima da administração da mercadoria cultural. Projetava-se no horizonte a imagem de uma Aldeia Global, utopismo corsário redivivo com suas redes de cooperação, enclaves provisórios e zonas autônomas temporárias.
Não demorou, no entanto, para que os sonhos emancipatórios destes primeiros piratas se mostrassem bastante acanhados. O horizonte utópico logo se estreitou, mas os porta-vozes da cibercultura seguiram apostando na promessa de uma democratização inaudita da vida cotidiana. Passou-se a falar em convergência midiática: a Internet seria capaz de abolir a distância entre emissores e receptores, suprimindo tanto os públicos passivos quanto os conglomerados hegemônicos. A cultura seria finalmente reapropriada pelas massas.
Em primeiro lugar, a Internet não é um fenômeno sui generis. Existem outros espaços informáticos, a exemplo do genoma humano mapeado. O que a rede mundial de computadores realiza é uma articulação de espaços informáticos distintos, instaurando um terreno comum no qual vigora um senso de simultaneidade virtualmente absoluto. O conjunto de protocolos ou instruções que engendram essa articulação descentraliza, é verdade, mas ao mesmo tempo garante controle absoluto sobre o sistema. A experiência subjetiva de vínculos livres e descentralizados tem a sua contraparte na estrutura objetiva dos protocolos DNS, sistema responsável pelo estabelecimento de domínios e endereços cujos servidores, em sua maior parte, encontram-se tutelados pelo estado profundo norte-americano. O fato não deveria surpreender, afinal, a história da rede mundial de computadores documenta um dos casos mais bem-sucedidos de edificação e manutenção de um complexo industrial-militar. A sua origem e escopo resultam da brutal aceleração sofrida pela política no bojo da guerra fria e da ameaça nuclear, contexto que exigia métodos de comunicação virtualmente instantâneos. Em última instância, a Internet segue administrada pelos mesmos agentes que primeiramente lhe conceberam, de modo que, caso a situação assim exija, uns poucos membros de alto escalão têm plenas condições de interromper todas as emissões.
O fato de ser caso exemplar do complexo-industrial militar norte-americano significa que também a estrutura corporativista e concentracionária da velha indústria cultural sobreviveu às últimas mutações econômicas e segue lançando sua sombra sobre todas as aspirações de democratização da cultura. Os bens culturais seguem subordinados à economia dominante, que hoje se apresenta sob a forma de um monstruoso conglomerado de corporações e gestores de dados que, respondendo ainda à demanda tirânica da mercadoria pela expansão contínua do seu Espaço Vital, aperfeiçoaram criticamente os velhos mecanismos de administração da esfera pública.
Em segundo lugar, a Internet é uma estrutura fundamentalmente material. Além de ser um amontoado de silício, vidro, cabos, discos de armazenamento e um pegada profunda de consumo energético, tornaram-se tênues as fronteiras entre as esferas virtual e real, online e offline, em particular devido à crescente portabilidade dos aparelhos conectados. A Internet como espaço isolado na sua virtualidade é uma veleidade de seus adeptos e publicitários. Ademais, o espetáculo ofuscante da publicidade completou a unificação de ambas as instâncias. Hoje, a crescente inabitabilidade dos espaços físicos corre em paralelo à hipertrofia das experiências ditas virtuais.
Pode-se medir o estado de degradação do conjunto do ciberespaço pela presença predatória de um único modelo de interface, que surgiu com a ascensão das redes sociais e logo contaminou toda a rede. Hoje, a maior parte das páginas e plataformas tornaram-se variações de um mesmo feed algorítmico. O restante da rede, a profusão de sítios que vigorava ainda uma ou duas décadas atrás, foi expulsa dos indexadores e esvaziada de todo o público ou, no caso das páginas que conservam ainda alguma relevância, o fazem apenas através da mediação coercitiva das redes sociais.
Estrutura que produz a si mesma, o feed é incansável na sua morosidade circular. Experienciá-lo é viver um presente perpétuo em que o tempo parece terminantemente suspenso. Os cálculos impessoais do seu algoritmo aglutinam, sem lacunas quase, uma multitude de instantes fugazes que se apresentam à percepção como uma massa homogênea. Graças ao feed, a circulação de conteúdos é imediatamente condicionada por parâmetros rígidos e comercialmente administrados, e toda a estrutura torna-se refratária a quaisquer demandas que não a lógica imanente do seu algoritmo. Esse algorítmo tanto regula os fluxos de informação quanto produz e aperfeiçoa modelos preditivos, mecanismos intrincados de classificação de públicos-alvo que visam aperfeiçoar a prática da publicidade direcionada. Assim, tudo o que o feed assimila torna-se imediatamente publicidade, e a publicidade mais eficiente é a que menos se apresenta como tal.
Toda e qualquer experiência sensível formadora e verdadeiramente aprazível resulta da alternância entre a fruição do instante, quando suspende-se o esforço do pensamento, com o trabalho ativo de elaboração pelo qual o sujeito constrói uma sucessão coerente e prenhe de sentido. O ócio é combinado ao dispêndio, a dispersão dos impulsos à concentração reflexiva. Mas a sucessão sem lacunas do feed atrofia e unilateraliza a sensibilidade. Quando o senso temporal da experiência é suprimido, a apreensão crítica dos fatos e acontecimentos torna-se custosa. Dispensa-se o tempo, e com ele a história, a memória e o sentido. Por isso é que a interação com o feed é marcada sobremaneira por uma aprazibilidade vaporosa que inibe o investimento reflexivo. Por isso é que, mesmo quando dispersos, fulminados por estímulos lancinantes e esgotados pelo cotidiano, mesmo quando extenuados e deprimidos, seguimos ainda capazes de fruir dos seus estímulos. Nenhum abatimento do ânimo é paralisante o suficiente para coibir o seu gozo. O feed algorítmico torna-se assim a experiência mais apropriada para uma sociedade de neurastênicos.
A suspensão do senso de temporalidade é também a dissolução das múltiplas formas de fruição do tempo em uma unidade indiferenciada. A Internet, quando cria as condições para uma simultaneidade virtualmente absoluta, antecipa e serve de arquétipo àquele processo real de unificação de todo o mundo “pelo tempo da produção econômica, dividido em fragmentos abstratos iguais e que se manifesta em todo o planeta como o mesmo dia”.
O ciberespaço é um espaço perfeitamente privatizado. Tudo no seu interior se constitui como um vasto playground, e nele todas as atrações se parecem demasiadamente. Barras rolantes e botões coloridos, efeitos de processamento gráfico, padrões de repetição, caixas flutuantes, campos de preenchimento, CAPTCHAs e reCAPTCHAs, mecanismos de quantificação – de caracteres, seguidores, amizades, preferências, repúdios e afinidades; pop-ups e armadilhas virtuais que espreitam por entre os pixels, todo o conjunto a compor um esquema complexo de captura e tutela da atenção. São jogos infantis, é verdade, mas que resultam do estado da arte da psicologia cognitiva e da física social. Ambas as disciplinas concorrem, no seu conjunto, para a recolha e processamento de uma quantidade obscena de dados sobre tudo que pode ser quantificado, classificado, mobilizado enfim, para alimentar e aperfeiçoar os sistemas de controle algorítmico. Daí a crescente e acelerada complexificação dos sistemas informáticos, complexificação inversamente proporcional à infantilização docilizante das interfaces correspondentes. Os dados alimentam o algoritmo, que retroage sobre a sua estrutura e aperfeiçoa todo o conjunto. A experiência virtual concorre, dessa maneira, à elaboração de modelos e simulações de situações cotidianas complexas, até que se lhes possa finalmente assumir o lugar.
Até pouco tempo, havia ainda algo de paranoico quanto a indagar pela possibilidade de que as redes sociais e os grandes gestores de dados espionam seus usuários de modo tão despudorado como quando acessam indiscriminadamente as nossas câmeras, microfones, acelerômetros, osciloscópios, giroscópios, e toda a parafernália que, acoplada aos celulares e outros aparelhos, recebe o nome de Internet das Coisas. Também o corpo é aparelhado por esse complexo de coisas, ora como sensor de carne, sensível aos inputs do ambiente circundante, ora como “feixe de impulsos” que deve ser decifrado, quantificado e mercantilizado. Daí a recente e vertiginosa expansão da infraestrutura celular – o termo remete à organização das redes de transmissão, distribuídas em células cuja combinação estratégica multiplica a área de cobertura –, projeto antes de logística militar, cujo fim é tanto o controle de multidões quanto o monitoramento de indivíduos. O uso comercial dos aparelhos é secundário e permanece ainda instrumental para estruturas de controle mais profundas. O progresso tecnológico tornou possível o registro, processamento e compartilhamento remoto de informações tanto dos corpos em movimento quanto dos ambientes circundantes, numa dinâmica mesológica que visa controle absoluto das partes tanto quanto sobre o todo. Os alvos são multiescalares, e vão das grandes multidões às idiossincrasias mais particulares. Um mesmo processo de monitoramento e modulação assujeita estados de espírito tanto quanto territórios inteiros. Os aparelhos celulares são capazes mesmo de, por meio de técnicas de visão computacional, identificar o olhar que, fatigado, passa a errar pelas bordas do ecrã, ajustando em seguida os parâmetros de exposição de modo a recapturar a atenção fugidia e prolongar o tempo de extração e mercantilização de dados cognitivos. Estamos às voltas com a mesma empresa primitiva do rastreio e caça de alvos humanos, eterno motivo que anima ainda todas as guerras e todo o aparato militar. E a sociedade inteira conserva-se ainda nesse estágio paradoxal de uma pré-história superequipada.
Dado o atual estado de coisas, é difícil não reconhecer que as hipóteses elementares sobre o elemento regressivo da indústria cultural, conforme formuladas por Adorno e Horkheimer nos anos de 1940, não apenas resistiram à obsolescência, tantas vezes alegada, como tiveram, por força das novas circunstâncias, multiplicadas as suas evidências. Assim, muitas das passagens que à época pareciam obscuras tornam-se hoje absolutamente claras. “É fácil identificar”, por exemplo, “o lugar da ciência na divisão social do trabalho. Ela tem por função estocar fatos e conexões funcionais de fatos nas maiores quantidades possíveis. A ordem do armazenamento deve ser clara. Ela deve possibilitar às diversas indústrias descobrir prontamente a mercadoria intelectual desejada na especificação desejada. Em larga medida, a compilação já é feita em vista de encomendas industriais precisas”.
É verdade, no entanto, que a Internet traz consigo novos elementos. Em primeiro lugar, ela assimila todo um conjunto de mídias audiovisuais de modo a constituir um vasto ecossistema. Ao mesmo tempo, ela opera uma transformação qualitativa nos velhos aparatos de reprodutibilidade técnica, graças à qual a visualidade e o sentido da visão perdem centralidade no âmbito da experiência com as mídias. Não é possível compreender a Internet somente a partir da experiência visual, e a profusão de telas ofusca mais que revela. Considere-se, por contraste, aquele que, para Adorno e Horkheimer, havia sido o “carro-chefe” da indústria cultural ao longo do último século: o cinema. Trata-se de uma mídia eminentemente visual – a linguagem cinematográfica já havia conquistado a maturidade antes mesmo do advento do som. Assistir a um filme lança o espectador em um fluxo vertiginoso de imagens, mobilidade virtual mas subordinada, ao mesmo tempo, à imobilidade motora real tão característica da experiência cinematográfica. Na Internet, diferentemente, a experiência visual dissimula uma topologia sensível mais complexa. Agora, o que se almeja são técnicas e aparelhos sensíveis que possibilitem a captura e regulação da motricidade dos corpos. Com a acoplagem da tela e seus penduricalhos ao corpo, o tato ganha primazia sobre a visão, a interatividade sobre a contemplação passiva. Finalmente, a imobilidade motora da experiência cinematográfica cede lugar à mobilidade imperativa dos aparelhos portáteis.
Mas o efeito de estupidificação tão próprio do cinema – a interdição do pensamento provocada pelo fluxo contínuo de imagens – tem sempre vigência passageira, afinal, obra fechada, o filme sempre se encerra. Daí também o traço distintivo de todos os cinemas modernos: contra a continuidade clássica, a montagem moderna ressalta as fraturas e interrupções, numa interiorização da cisão que pretende emancipar o espectador na medida em que reserva espaço à reflexão. A experiência com o ciberespaço, por outro lado, preenche, de forma virulenta, todos os poros e interstícios oferecidos pelo cotidiano; a reflexão torna-se dispendiosa demais em meio à onipresença de estímulos dispersivos. O quadro se agudiza ainda pelo fato de que, em contraste com a obra cinematográfica, a obra desmedida do ciberespaço não se encerra jamais.
Se Giovanni Arrighi e os teóricos dos sistemas-mundo estão corretos, então é preciso buscar a gênese da atual sociedade da mercadoria naqueles enclaves protocapitalistas que despontavam, a partir do século XV, em meio ao já decadente feudalismo europeu. É precisamente no capitalismo incipiente de cidades como Veneza, Milão e Gênova que prospera um novo modelo de representação visual que se convencionou chamar de perspectiva artificialis. A nova forma de representação acompanha a ascensão das novas práticas de racionalização e domínio sobre a natureza, e visa antes de tudo a impressão de figuratividade. Os novos pintores, fazendo uso de câmaras escuras e proporções geométricas, respondendo ainda a certo conjunto de demandas inconscientes da sociedade mercantil emergente, esforçaram-se por simular o olhar, organizando o material à sua disposição em função do ponto de fuga que, por sua vez, fixa de antemão o lugar ocupado pelo sujeito.
A perspectiva, dispositivo pictórico que organiza o olhar e que acompanhou a gênese e o desenvolvimento do mundo burguês, séculos depois atualiza-se e torna a organizar também a motricidade dos corpos. Agora, o mesmo sujeito transcendental que organizava representações em função de um objeto apenas visado passa a regular o movimento dos corpos. Pode-se dizer que finalmente conquistamos a maioridade: o sonho kantiano de um sujeito que condiciona toda e qualquer experiência se realiza como pesadelo sob a forma da world wide web. Conserva-se o desiderato pelo qual toda e qualquer experiência deve se adequar a uma lei que lhe antecede, mas a captura ganha nova abrangência quando o corpo é subsumido ao esquema em um sentido mais profundo.
Se houve implicações arquitetônicas e urbanísticas que acompanharam o surgimento da perspectiva visual renascentista, é natural que a disposição espacial das cidades contemporâneas também se adéque aos novos instrumentos que tomam o corpo como alvo. Os mecanismos de apropriação da energia motriz avançam na medida em que o próprio espaço público é carcomido pelo transbordamento das redes algorítmicas. As cidades repelem os seus ocupantes e reduzem-se cada vez mais a vias de rápida circulação. Finalmente, sem um solo comum capaz de suportar a permanência e o entrechoque dos corpos, esgarçam-se os laços de solidariedade e são decompostas as condições materiais da própria democracia.
É claro que as linhas infindáveis de código que regulam a circulação da informação encontram-se cerradas por detrás da violência jurídica que privatiza o conhecimento na forma da propriedade intelectual. A administração de toda a sociedade, no nível molecular dos corpos individuais, é debatida diariamente em reuniões cujas portas permanecem naturalmente fechadas. Mas os desígnios mais profundos desse grande mecanismo ocultam-se também de seus gestores e proprietários. Não há ninguém que realmente detenha o controle. Por outro lado, os segredos das redes algorítmicas se furtam à vista somente na medida em que suas entranhas são superexpostas numa visibilidade ofuscante: não se pode ver nada pois tudo se põe à vista com uma nudez massiva e assombrosa. Por isso é que todos temos sempre ao menos a vaga intuição de que não se está de posse das próprias faculdades quando se navega por entre os estilhaços dessa bomba informática, e mesmo as elites políticas e econômicas encontram-se subordinadas a esses novos e impessoais mecanismos de controle.
São muitas as patologias resultantes, individuais e coletivas. Fala-se em depressão, psicose e ideações suicidas; em problemas severos de aprendizado, epidemias de autismo, dislexia e distúrbios de atenção; em todo tipo de dores e atrofias musculares, no prejuízo à visão e do embotamento geral dos sentidos; na indiferença e cinismo rampantes, afetos que servem de fermento para os novos autoritarismos; das câmaras de eco e do narcisismo crônico, da supressão do dissenso e do envenenamento do debate público… Tudo graças ao mau uso da rede e dos aparelhos eletrônicos que, no entanto, não parecem oferecer usos de qualquer outra natureza.
Por isso, é de vital importância consultar a opinião dos especialistas no assunto da prevenção dos danos, buscando formas eficientes de manuseio destes aparelhos que nos perseguem por todo o tempo, já embrenhados igualmente no trabalho e no lazer. No caso do celular, é recomendado que se coloque a tela à altura dos olhos, a fim de reduzir a tensão provocada pelo peso crescente das cabeças declinantes. Não se recomenda o uso prolongado de tela alguma. Quanto à digitação adequada, é preciso fazer uso de todos os dedos das mãos, de modo a distribuir o impacto e reduzir os riscos de lesão por esforço repetitivo. O pulso e o conjunto das falanges devem ser dispostos em linha reta, de modo a tanto melhorar a eficiência da digitação quanto conservar a saúde das articulações.
Apesar de sumamente importantes, essas medidas possuem, no entanto, eficiência relativa e limitada. Sem desconsiderar as salutares recomendações das autoridades no assunto da prevenção de danos, talvez seja preciso adotar um procedimento de outra natureza: joguem fora seus celulares e saiam às ruas.
Marx encerra O Capital com uma descrição pormenorizada da “assim chamada acumulação primitiva”, processo que, nos primórdios da modernidade, criou as condições para o desenvolvimento e disseminação do capitalismo. A mercadoria tomava o mundo de assalto à medida em que seus emissários rapinavam povos inteiros. Hoje, a acumulação primitiva parece ter se atualizado em uma versão mais pregnante e sofisticada: um monstruoso data-center vem acumulando quantidades colossais de informações sobre os detalhes mais íntimos do comportamento humano. Se são bem conhecidos tanto os métodos sanguinários quanto as consequências aterradoras da primeira acumulação primitiva, resta saber se os segredos desta acumulação primitiva 2.0, sua iteração mais recente, poderão ser decifrados – assim como mobilizados os instrumentos e a estratégia adequados – antes que suas consequências mais aterradoras consumem-se por inteiro.